Prefontaine foi um dos mais rápidos corredores de todos os tempos; rápida também foi sua trajetória, encerrada precocemente por um acidente de carro, aos 24 anos.
Por Flávia Galembeck
Conhecido como Pre, apelido de família, Steve Roland Prefontaine conquistou seu lugar na história da corrida pelos seus resultados, pelo seu estilo irreverente e por seu amor e dedicação ao esporte.
Sua popularidade no começo da década de 70 se assemelhava a de astros do rock. O mesmo pode-se dizer de seu comportamento. Ele não chegou a quebrar quartos de hotel, mas comprou uma boa briga com a Amateur Athletic Union (AAU), instituição que regulamentava o atletismo nos EUA. E não levava exatamente uma vida espartana. Festas e bebidas faziam parte de seu cotidiano. Mas sua vida social não interferia em seu treinamento. Ele nunca faltou a um treino –e eram dois ao dia.
Em sua primeira corrida já como universitário, no ginásio Hawyard Field, em Eugene, Oregon, Pre criou um elo com a torcida. Era comum que nas primeiras voltas o público se dispersasse. Mas, já na largada, o empenho do calouro Prefontaine chamou a atenção dos espectadores. Na medida em que ele puxava o ritmo, o público correspondia chamando seu nome, o que o fazia acelerar ainda mais suas passadas. Era como se as pessoas ali entrassem em transe. Pre sabia como nenhum outro criar esse elo com a torcida. Ele incentivava e correspondia, amava e era amado. A cena se repetia a cada corrida de que ele participava.
De perdedor a vencedor
Se não fosse pela baixa estatura (1,75 m), ele poderia ter sido um jogador medíocre de basquete ou de futebol americano, esportes mais populares na época em sua cidade natal Coos Bay, Oregon, EUA, e não seria uma lenda na corrida.
Seu interesse por esportes despertou em 1966, quando ele ingressou na Marshfield High School, onde fez o ensino médio. Tentou ingressar nos times de basquete e de futebol, mas não conquistou uma vaga nem entre os reservas. Foi quando ouviu do técnico de atletismo Walter McClure que poderia correr e chegar na frente de seus colegas. Nesse mesmo ano, Pre se inscreveu na corrida estadual de cross-country no Oregon e chegou na 53ª colocação.
No ano seguinte, 1967, na mesma prova, foi o sexto a cruzar a linha de chegada. Apesar de ter surpreendido a todos com sua rápida evolução, Prefontaine não se deu por satisfeito pois sua meta era vencer o campeonato. Em 1968, não conseguiu se classificar para a estadual de cross-country devido a uma lesão, causada pelo excesso de treinamento. Para compensar, venceu todas as outras 11 competições de que participou.
No seu último ano na escola, 1969, quebrou o recorde dos jogos estudantis correndo duas milhas (3.218 metros) em 8min41s5. Em seguida, recebeu um bilhete do renomado técnico Bill Bowerman (co-fundador da Nike) dizendo que se ele fosse para a Universidade do Oregon, poderia ser o melhor corredor do mundo. Prefontaine foi.
Go Ducks!
Na Universidade do Oregon, onde ficou de 1969 a 1973, conquistou sete títulos da National Collegiate Athletic Association (NCAA), sendo três no cross-country (em 1970, 1971 e 1973), e quatro nas três milhas em trilha (4.827 metros), de 1970 a 1973 – o primeiro estudante universitário daquele país a conquistar a façanha em pista e, o segundo, no cross-country.
Ainda na universidade, estabeleceu o recorde norte-americano nos 5.000 m, feito que o levaria aos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, sua única participação nas Olimpíadas.
Aos 21 anos, o velocista era o mais jovem competidor dos 5.000 m. Nos 3.339 m (duas milhas), Prefontaine conquistou a liderança da prova e conseguiu mantê-la por mais mil metros. Faltando 600 metros para a chegada, foi ultrapassado pelo finlandês Lasse Viren. Em seguida, pelo tunisiano Mohamed Gammoudi e pelo escocês Ian Stewart (este o ultrapassou a dez metros da linha de chegada) e, com a quarta colocação, Pre não subiu ao pódio. Sua esperança era ter uma segunda chance nas Olimpíadas de 1976, em Montreal. Ele ficou devastado por não ter subido ao pódio. “Ele ficou quieto por meses depois das Olimpíadas, não se dedicava tanto aos treinos, passou a beber mais, muitas vezes abrindo as primeiras latas de cerveja ainda pela manhã. Sua personalidade mudou dramaticamente. Confesso que passei a gostar mais dele”, conta Steve Bence, colega de faculdade.
Rebelde com causa
Na época, a Amateur Athletic Union (AAU) regulamentava os esportes e os esportistas nos EUA. Para participar de competições no exterior, os atletas precisavam de autorização da instituição. O problema é que a AAU também gerenciava (e lucrava) com as provas nos EUA.
Prefontaine recebia da instituição US$ 60 mensais. Ele brigava pelo direito dos atletas escolherem as provas de que iriam participar, de receberem ajuda dos promotores internacionais no custeio das despesas relacionadas às viagens e ajuda da instituição no custeio dos treinos. Um exemplo da briga aconteceu em 1971. O Pan Am Games aconteceu na Colômbia. Alguns atletas queriam competir na Europa, que oferecia uma compensação financeira. Para a AAU era ou o Pan Am Games ou nada. Contrariado, Pre foi e venceu os 5.000 m da competição.
Para se sustentar, Prefontaine trabalhava como bartender meio-período em um bar e em 1974, ele se tornou o primeiro atleta a ser patrocinado pela Nike.
Acidente fatal
Steve Bence, hoje com 55 anos, foi colega de faculdade de Prefontaine e também participou da competição de 5 km na Hawyard Field, em Eugene, Oregon, a última de Pre, em 29 de maio de 1975. Bence conversou por e-mail com a O2 e assim relata aquele dia.
“Prefontaine venceu a corrida no ginásio da universidade onde estudamos. A vitória ali tinha um gosto especial e apenas três vezes em que competiu ali ele não foi o vencedor. Entre seus conterrâneos, colegas, amigos e pais, ele comemorou com várias voltas no ginásio. Depois de assinar muitos autógrafos, Pre foi até o apartamento que eu dividia com Mark Feig para tomar banho. Depois, nós três seguimos para a premiação. Ali, ele encontrou a namorada, Nancy Allman. O casal parou em um bar para tomar algumas cervejas e depois, por volta das 22h, seguiu para uma festa na casa de Geoff Hollister, onde bebeu seis cervejas em um intervalo de duas horas. Por volta da meia-noite, Pre, Nancy e mais um amigo do casal, Frank Shorter, foram embora. Passaram pelo ginásio, onde Nancy pegou seu carro. Pre deixou Shorter em casa e seguiu para Coos Bay. A estrada era familiar, afinal, ele fez esse caminho diariamente enquanto era estudante universitário. Na parte de baixo do Skyline Boulevard, em Eugene, na interseção com a Birch Lane, há uma curva acentuada. Pre dirigia um carro esportivo, um MGB 1973. Ele passou pelo cruzamento, perdeu o controle na curva e bateu em uma parede de rocha. Não há indícios de que ele estivesse em alta velocidade, mas ele não usava cinto de segurança. Segundo a polícia, ele não morreu instantaneamente, mas sufocado pelo peso do carro em seu peito. O teor alcoólico em seu sangue era de 0,16%. O percentual máximo permitido no estado era de 0,10%. No local foi feito um espécie de memorial e há uma placa sinalizando o local onde o carro bateu”
Aos 24 anos, na madrugada de 30 de maio de 1975, morreu Steve Prefontaine.
Na pequena Coos Bay, cidade de pouco mais de 15 mil habitantes no estado norte-americano de Oregon, no noroeste dos EUA, há 27 anos é realizada a Prefontaine Memorial Run, corrida de 10 km organizada pela escola onde ele estudou. O trajeto passa por uma das trilhas em que o corredor costumava treinar e termina na escola. A prova é disputada em 16 de setembro.
Mais informações, acesse o www.prefontainerun.com
A arte imita a vida
O corredor inspirou dois filmes: “Prefontaine”, que em português é “Prefontaine- Um Nome sem Limites”, lançado em 1997 e distribuído pela Buena Vista, e “Without Limits”, traduzido para português como “Prova de Fogo”, da Warner, lançado em 1998.
Por que virou lenda?
• Era uma das esperanças americanas para as Olimpíadas de Montreal-1976, mas morreu tragicamente no auge da carreira
• Estabeleceu 14 recordes de pista norte-americanos
• Correu 5 km em menos de 13min30s nove vezes
• Quebrou a marca dos quatro minutos por milha (1.609 metros) oito vezes
• Venceu 82 dos 102 eventos outdoor de que participou entre 1970 e 1975, em distâncias que variaram de uma milha a 10 km
• Ocupou o primeiro lugar no pódio quatro vezes nas três milhas (5 mil metros) e três vezes no campeonato NCAA de cross-country
• Foi o primeiro em todas as provas três milhas da AAU entre 1971 e 1973
• Foi o mais rápido nos cinco mil metros dos Jogos Pan Am em 1971
• Venceu as classificatórias dos cinco mil metros para os Jogos Olímpicos em 1975
• Ele correu uma milha (1.609 metros) em 3min54s6, dois quilômetros em 5min06s2 e duas milhas (3.218 metros) em 8min19s4, três quilômetros em 7min44s2, cinco quilômetros em 13min22s4, e seis milhas (9.654 metros) em 27min09s4

Amigo, Steve Prefontaine é um marco na história do atletismo e das provas de 5000m. Ele infelizmente morreu, exatamente, no dia que nasci. em 30 de maio de 1975.
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