sábado, 27 de março de 2010

ANDAR NÃO É QUEBRAR


Considerada pelos corredores apenas como forma de adaptação de iniciantes, a caminhada acaba sendo vista como "quebra" por aqueles que já estão muito além dos trotes, como os maratonistas. Mas há quem defenda que ela possa ser uma ótima estratégia de prova, ao ser inserida em curtos intervalos desde o início da corrida e não quando o indivíduo chega à exaustão.
Entre os benefícios, os intervalos de caminhada eliminam a fadiga acumulada, restauram a flexibilidade dos principais músculos e reduzem a tensão dos tendões do joelho. Isso permitiria ampliar a capacidade muscular no fim da corrida, reduzir a chance de contusão, prolongar o limite do corredor, fazendo com que possa correr distâncias maiores se sentindo bem, e ajudar corredores não só a fazer sua primeira maratona como a melhorar seu tempo nela.
O tema, obviamente, divide opiniões. "Quem precisa caminhar é porque não está bem treinado. Para uma pessoa com bom condicionamento, a caminhada só serve como descanso ativo", diz Mário Mello, diretor técnico da Mario's Team e diretor de marketing da Associação de Treinadores de São Paulo (ATC). Ele admite que, em alguns momentos, a caminhada pode ser vantajosa, como numa ladeira forte, para que o corredor se recupere e possa ter melhor desempenho no plano, depois. "Mas adotar isso como estratégia de prova seria um artifício para dar uma 'roubadinha', acho que me sentiria enganado", diz Mello.
Tanto isso é verdade que o acúmulo de passos, por meio do uso de pedômetros, é uma das estratégias de combate ao sedentarismo, um problema relacionado a quase 2 milhões de mortes por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde. "Temos como parâmetro a marca de 10000 passos por dia para um indivíduo ativo, ou 3800 a 4000 feitos de forma ininterrupta, por 30 minutos. É uma forma simples e fácil de implantar a atividade física na rotina, com o objetivo de ter mais saúde", afirma o professor e pesquisador Timóteo Leandro Araújo, do Centro de Estudos do Laboratório de Aptidão Física de São Caetano do Sul (Celafiscs).

No outro lado da trincheira, um dos principais defensores da medida é o treinador norte-americano Jeff Galloway, colunista da RUNNER’S WORLD. Em seu livro Manual de Corrida, cuja segunda edição acaba de ser lançada no Brasil, ele afirma que já correu mais de 100 maratonas, algumas usando essa estratégia. "O título de maratonista foi dado, desde o início, àqueles que completavam a distância por seu próprio esforço, fosse correndo, fosse andando, fosse engatinhando... Quando cruza a linha de chegada, faz parte de um grupo de elite. Não deixe ninguém tirar esse grande feito de você", escreve ele. E completa: "Em todas [as provas] que inseri esses intervalos, experimentei idêntico senso de realização".

Segundo Galloway, a caminhada pode inclusive ajudar a melhorar as marcas de maratonistas experientes, ao permitir que se aumente a intensidade da corrida, o que compensaria o tempo andando, pelas pernas estarem mais "frescas". “Não se trata de um treino intervalado, mas de um aeróbico intensivo. Todo mundo faz a segunda metade da prova mais lentamente, mas às vezes com mais de 4 minutos de diferença, o que é ruim, em função do desgaste. Os intervalos de caminhada podem fazer a pessoa aumentar o ritmo nos quilômetros finais, quando os outros estão diminuindo. E não acredito que a especificidade seja prejudicada porque você mantém a continuidade, os brasileiros é que não estão acostumados com a ideia”, diz Marcos Paulo Reis, também um defensor da caminhada.
Segundo ele, as pessoas têm medo de diminuir o ritmo ao andar e não conseguir voltar mais. O melhor, portanto, é fazer intervalos de 1 minuto a cada 5 minutos, em vez de um intervalo de 5 minutos a cada 25. "No triatlo, é comum que a cada milha o corredor aproveite o momento de hidratação para andar 200 a 300 metros. Na corrida de rua, essa estratégia poderia ser adotada em curtos intervalos nos postos de abastecimento. Ajudaria as pessoas a terem mais constância no ritmo e a se machucarem menos", diz.

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